domingo, 18 de dezembro de 2011

A Pele que Habito - La Piel que Habito.



A Pele que Habito
 (La Piel que Habito, 2011), o cineasta Pedro Almodovar volta com força total nesse tipo de construção de personagens. Agora se valendo de recursos inéditos, como o terror, ficção científica e o noir, Almodóvar nada mais faz do que reafirmar seu estilo de fazer cinema, só que com a ajuda de alguns apetrechos que potencializam suas ideias. Agora tudo está elevado a nível exponencial e essa questão de um homem deixar aflorar seu lado feminino será berrante, beirando o status de aberração – como somente um filme de horror é capaz de elevar. Aqui temos um cientista maluco à lá Frankenstein, uma cobaia humana indefesa e um motivo de vingança propulsor para dar um pontapé inicial. Em A Pele que Habito temos um conto de horror refletido na imagem de um cinema assexuado e ilimitado.
O brilhante cirurgião plástico Robert Ledgard (Antonio Banderas) tem sua vida destruída quando sua esposa morre em um acidente. Anos depois sua filha é estuprada em uma festa de casamento e depois vai parar em uma clínica psiquiátrica, completamente fora de si. Mergulhado em seu trabalho para esquecer seus problemas, ele começa a projetar um tipo de pele sintética capaz de proteger o corpo humano de danos físicos, e sua cobaia é uma misteriosa mulher cativa em um cômodo trancado de sua mansão. A única cúmplice de seu projeto megalomaníaco é sua própria mãe, Marilia (Marisa Paredes), que por algum motivo parece não confiar nem um pouco na tal mulher mantida em cativeiro.
Apesar dessa premissa esquisita e aparentemente difícil de conduzir, não podemos esquecer que o cinema de Almodóvar é muito orgânico, e tudo flui naturalmente sem muita dificuldade. Como se estivesse ciente dos possíveis obstáculos que esse tipo de história poderia acarretar, o cineasta ignora alguns tipos de tradições do terror e da ficção científica, e se foca apenas no drama, evitando assim se perder em explicações que jamais dariam conta de esclarecer racionalmente cada idéia apresentada. Sendo assim, resta apenas nos deixar levar por essa fluidez com que tudo ocorre. Uma vez em que o próprio diretor se mostra indiferente a esses elementos periféricos, para nós espectadores só resta acompanhar a trama da maneira como ele deseja que façamos.
A partir deste parágrafo, alerto que alguns detalhes reveladores da trama serão comentados, então fica por conta de cada leitor decidir continuar ou não. Apesar de se basear no romance de Thierry Jonquet, A Pele que Habito é um filme que não poderia combinar melhor com a essência da persona de Pedro Almodóvar. Seu cinema é quase que inteiramente dedicado a retratar a cultura gay de uma maneira universal, portanto é interessante notar o papel da pele nesse contexto. Não é à toa que a pele se mostra o elemento catalisador de tudo a ser transmitido, já que na história ela prende a tal mulher em um sexo que não lhe pertence. Como é mostrado em determinado momento da trama, aquela mulher na verdade se trata de Vicente, o garoto drogado que estuprou a filha de Robert durante a festa de casamento, e que agora foi capturado pelo cirurgião, dopado e teve seu sexo mudado em uma cirurgia clandestina. Determinado a se vingar, Robert quer que Vicente passe por tudo aquilo que sua filha passou, trancafiando-o como uma mulher em uma pele vedante.
Assim sendo, temos Vicente – um heterossexual convicto – obrigado ter seu sexo mudado, a estrutura de seu corpo inteiramente modificada nos moldes do corpo feminino. Querendo ou não, ele está preso àquilo, e a sua pele sintética lhe serve como as grades de uma prisão. Trata-se de um processo inverso ao que vemos no cinema quando se trata de um personagem travestido, que repudia seu corpo e expõe ao mundo seu desejo de ser como uma mulher, se vestir, falar, e se relacionar como uma. Vicente representa então nesse contexto um travesti introvertido, preso a uma condição que deplora e que deseja a todo custo voltar a seu sexo original. Enquanto os travestis estão presos a um corpo de homem, Vicente se vê habitando a pele de uma mulher.
Inacreditavelmente, Almodóvar faz dessa metamorfose horrenda e desnatural algo quase artístico. As cores de sua fotografia, vivas e sagazes, a escolha de enfeitar seus cenários constantemente com quadros de corpos nus e disformes (inclusive um deles é de Tarsila do Amaral), ampliados em paredes imponentes, não passam de sugestões para nós espectadores, auxiliadores narrativos. Vemos nessas obras de arte o corpo humano deformado, estilizado em cores que representam em um filme de horror algo medonho, gritante, aprisionador.
Não poderia esperar menos de um diretor como Almodóvar se aventurando em um gênero tão curioso como o terror. Ele redimensiona o gênero e o usa em prol de suas idéias incomuns, fazendo de A Pele que Habito um filme por vezes horrendo, por vezes belíssimo. Pode ser visto como um neo noir, como um drama ou até mesmo como um tipo de comédia cruel, mas o que une todas essas classificações em uma só é a arte. Arte pura e eclética vista sob a lente de um cineasta sensível e autoral como poucos hoje em dia. 

Um comentário:

D disse...

MEU DEEEEUS, quanto spoiler!!!!! rsrs. SEgunda vez que ouço falar bem deste filme nesta semana. tenho que assistir.